quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Haiti: desastre não foi natural

Surpreso? Então, constate. Não existe mais tragédia causada por desastre natural. Todas elas têm por trás a varinha mágica do capital, mesmo maremotos, tsunamis, tufões, furacões e até terremotos como esse que matou e destruiu no Haiti. Quando tentei explicar isto a um leitor, outro dia, ele foi logo dizendo: “Pronto, lá vem você de novo com seu marxismo. E, desta vez, passou da conta!” Não houve jeito de fazê-lo entender que o capital está por trás de todas as tragédias decorrentes de desastres ditos naturais.

Não é mesmo fácil nem simples entender isso. Exige certo preparo teórico e um mínimo de acuidade, o que a maioria no Planeta, hoje alienada, inclusive intelectuais e sábios de renome, lamentavelmente não tem. Não é marxismo nem socialismo e muito menos comunismo. É constatação científica, algo amplamente comprovado pela ciência autêntica.

Tudo se resume ao seguinte: hoje, as tragédias que derivam de desastres naturais são, sem exceção, de responsabilidade do homem. Como vivemos numa sociabilidade regida pelo capital, e é o capital que dita as regras e conduz as ações humanas, portanto, modela nosso comportamento e a forma como nos relacionamos com nossos semelhantes, é o homem regido pelo capital o único responsável pelas trágicas conseqüências dos desastres naturais. Isto não é opinião nem ponto de vista ou modo de ver as coisas, mas dado científico já comprovado. Se você não acredita, pelo menos siga os argumentos.

Comecemos pelas tragédias decorrentes de dois tipos de desastres muito específicos, os furacões e os tufões, que têm matado tanto quanto as grandes guerras. As tragédias que eles causam são de inteira responsabilidade do capital primeiro porque é ele, o capital e não os indivíduos, que está acabando com a vida no Planeta. E, segundo, porque, ao acabar com a vida, atinge diretamente a biodiversidade ao elevar a temperatura na superfície da Terra. Ou seja, essas ações do capital acabam potencializando e ampliando o número destes dois tipos de desastres, furacões e tufões, a ponto de eles estarem se tornando cada vez maiores e mais devastadores. Ainda tem alguma dúvida?

Desastres como o do furacão Katrina, em New Orleans, poderiam ter sido evitados se a destruição ambiental não tivesse elevado o nível das águas a ponto de elas destruírem as barragens da região, inundando a cidade. É sabido, George W. Bush perdeu as eleições logo depois não só porque não viu que os títulos podres levariam à recente crise mundial, mas porque nada fizera para solucionar o problema de sustentação dos diques, na área de New Orleans, e também porque fracassou depois, na ajuda humanitária às vítimas.

Por que Bush agiu assim? Porque o capital não está preocupado com o ser humano, mas tão só com as vendas. Não por ser um vilão incorrigível, mas porque esse descaso pela vida humana está no seu DNA. E as democracias, o Estado de Direito e os governos aí estão justamente para defender, proteger e azeitar os instrumentos que garantem sucesso nas vendas, para que a vida capitalista, e não a humana, siga sua marcha de acumulação.

Não é novidade para ninguém, o capital, ainda que movido por mãos humanas, obviamente, está pouco se lixando para o homem e para a vida no Planeta. O abandono ao ser humano está na essência da vida capitalista. Tomemos o exemplo do automóvel. Sim, a produção de veículos dá emprego, matou a fome de milhões, mas trouxe mais destruição do que benefícios. E vai trazer mais. Basta ver o caótico trânsito de São Paulo e o que ele está matando com a poluição, o estresse e os acidentes.

Poucos bens promovem tanta devastação quanto o automóvel. Como se trata de produto de consumo altamente lucrativo, capaz de alavancar toda a atividade industrial, passamos a fabricá-lo e a vendê-lo em escala. Não importa se, no médio prazo, ele envenenará as cidades e matará 62 mil por ano só em acidentes de trânsito, como acontece no Brasil (60 mil foram os soldados dos Estados Unidos mortos apenas na Guerra do Vietnã).

Vamos agora às tragédias resultantes de tsunamis, maremotos e terremotos como esse do Haiti. Parece que essas tragédias não têm nada a ver com as ações do capital. Nada mais raso e equivocado. Têm tudo a ver.

Confira:

A humanidade há mais de 500 anos está preparada para enfrentar e superar desastres como terremotos, maremotos e tsunamis. Quando os espanhóis chegaram à América, constataram que os incas, por exemplo, detinham uma engenharia avançada, que incluía tecnologia à prova de terremotos. Suas edificações, à base de grandes pedras encaixadas uma na outra, com folga para não ruírem nem despencarem, mantinham-se de pé e permaneciam intactas quando dos terremotos.

Os espanhóis nunca pensaram em incorporar essa tecnologia às suas edificações, que ruíam ao menor abalo sísmico, e é imenso o número de vítimas dos terremotos daquela época. Hoje, já temos tecnologia para suportar grandes terremotos sem desabamentos, mas ela só é aplicada em cidades de primeiro mundo, como Los Angeles. Em países pobres como o Haiti, em que as edificações são bastante frágeis, o que prevalece são os desabamentos.

Quanto aos maremotos e tsunamis, quando o capitalismo emergente, na sua fase mercantil, saiu em busca de matérias-primas, no fim do século 15, até chegar aos Descobrimentos, não encontrou índio nenhum com habitação ou oca instalada à beira-mar. Hoje, só no Brasil, são incontáveis as praias tomadas por prédios na areia, a alguns metros do mar.

A verdade é que, nas orlas marítimas, o capital nunca escondeu sua predileção por construir o que pode à beira-mar, como resorts, residências e grandes edificações, mesmo em áreas ameaçadas por maremotos e tsunamis. Nos países que experimentaram a colonização, como Brasil e Haiti, e em muitas regiões da Ásia e da África, só agora começa a haver esse tipo de preocupação. É óbvio que um hotel à beira-mar é muito mais lucrativo do que aquele a um quilômetro da praia. Copacabana basta como exemplo dessa irracionalidade: foram gastas grandes somas só no último aterro, e para solucionar apenas em parte o problema.

Uma vez que o capital está preocupado apenas consigo mesmo, e não com a vida humana, acabamos não desenvolvendo soluções capazes de evitar tragédias nessas áreas. Resulta disso que temos hoje milhões de edificações à beira-mar, no Planeta, à espera de destruição por maremotos e tsunamis, principalmente em países pobres como o Haiti, onde as edificações são bastante precárias.

O homem comum e mesmo os sábios e intelectuais ainda não sabem, mas precisam saber: o que determina e modela o ser humano de cada época, e responde, portanto, pelas tragédias resultantes dos desastres naturais, não é Deus nem o Diabo. É, já o comprovou a ciência autêntica, a forma como o homem produz e trabalha, para garantir a sobrevivência da espécie. É dessa forma que emanam (ou não) os cuidados que devemos tomar para evitar as trágicas conseqüências de ‘desastres naturais’.

Uma vez que a forma como o homem produz e trabalha em nossos dias é a regida pelo capital, e que ela está pouco se lixando para o ser humano, é ele, o próprio capital, com sua varinha mágica, o único responsável pelas tragédias decorrentes dos "desastres naturais".

O terremoto no Haiti, em que perdemos Zilda Arns e milhares de vidas, é exemplo clássico dessa irracionalidade. O capitalismo da fase mercantil, de colonização predatória, extraiu o que pode das riquezas de toda a ilha Hispaniola, no Caribe, onde estão hoje a República Dominicana e o Haiti. No caso do Haiti, essa extração colonial se deu, primeiro, por mãos espanholas e, depois, por francesas, sempre com mão-de-obra escrava.

No começo do século 19, depois que a maior parte das riquezas já havia sido expropriada, escravos em rebelião se apoderaram do Haiti, derrotando as forças colonizadoras, que já não tinham tanto interesse pela região, depois de anos de extração. De lá para cá, tivemos uma sucessão de golpes de estado, com muitos ditadores e presidentes assassinados.

Da parte do capital, passou a haver uma única preocupação com o Haiti: que o país não seguisse o exemplo de Cuba e caísse nas mãos do comunismo, acabando com a frágil sociedade de mercado que ali sobrevivera. De lá para cá, a CIA jamais virou a cara para o Haiti, mas só neste aspecto. Em Cuba, o capital havia contado com o embargo para desestruturar, com sucesso, a economia do país. No Haiti, o embargo nem foi necessário, porque os ditadores e presidentes eleitos incumbiram-se de impedir a escalada do comunismo, permitindo ao capital que se desinteressasse pelas grandes questões haitianas.

O capital sempre cultivou esse hábito de transformar em vitrines suas áreas com risco de dominação comunista. A forma que encontrou para evitar “a invasão vermelha” foi abrir seus maiores mercados, como o dos EUA, com tarifas bem acessíveis, aos produtos dessas áreas de risco. Assim fez com o Japão, possibilitando o milagre japonês, e também com países asiáticos como a Coréia do Sul. O último foi o Chile. Não precisou fazer o mesmo com o Brasil porque os militares deram conta do recado em 1964. E também nunca precisou fazer com o Haiti porque ditaduras e presidentes eleitos incumbiram-se de fazê-lo.

O que restou do Haiti foi esse país de ninguém, sem grandes riquezas naturais, hoje com o maior bolsão de miséria do continente americano e abandonado pelo capital, vulnerável assim a todos os tipos de catástrofes. Um dado curioso: ao contrário do que tivemos no Brasil, as classes dominantes haitianas ergueram suas casas nas encostas e nos morros, distante das praias, com construção forte o suficiente para fazer frente a alguns tipos de terremoto.

Já as faixas mais pobres estabeleceram-se nas regiões mais planas, inclusive próximas ao mar, onde se proliferaram alguns tipos de ‘favelas’, obviamente as mais atingidas pelo terremoto. Isso é o capital. No caso específico do Haiti, sugou o que pode, deixando um rastro de humilhação e abandono e essa enorme vulnerabilidade aos "desastres naturais".

Se o capital não tivesse abandonado o Haiti, o país não teria sido atingido nem se deixado abalar por essa tragédia, vidas humanas como a de Zilda Arns teriam sido poupadas e não haveria necessidade da ajuda humanitária que agora chega.

Dependendo da maneira como trabalhamos e produzimos, se com a exploração e expropriação ou não de força de trabalho de uma classe por outra, temos um determinado tipo de ser humano mais ou menos propenso a ser vitimado pelos “acidentes naturais”. Isto quer dizer o seguinte: quanto mais a forma como produzimos e trabalhamos leva à destruição ambiental e da vida, mais devastadores são os ‘desastres naturais’.

Caetano Veloso tinha razão quando escreveu a letra de “Haiti”, canção composta por Gilberto Gil, ainda que tenha dado outro sentido ao que escreveu. O refrão diz que “o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”. Sim, o “Haiti é aqui”, e em todos os lugares, porque quando um ser humano morre por lá, vai com ele importante contribuição de significativa parte da humanidade. Somos todos irmãos, não é mesmo? Portanto, ninguém pode ser abandonado, muito menos um povo. Ou Jesus estava enganado?

E também o “Haiti não é aqui” porque, em termos de espaço físico, está a milhares de quilômetros de distância daqui. E também porque há mesmo diferenças entre Haiti e Brasil, o que de qualquer forma é irrelevante, posto que somos todos irmãos. Ou não?

Séculos de extração colonial capitalista às custas de força de trabalho escrava, seguida de completo abandono, apenas importava impedir o Haiti de se tornar comunista, fizeram do país a terra do nada, no abandono e onde só têm vez a destruição e a morte provocadas por "desastres naturais". De pouco adiantam as forças de paz.

Fonte : Tom Capri

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